La Fontaine

Doré
A Cigarra e a Formiga
A cigarra passou cantando
todo verão desse ano.
Depois se viu num apuro,
chegou um inverno duro.
Por um pedaço ou migalha
de pão ou mesmo de palha,
foi chorar feito mendiga,
lá na porta da formiga.
-"Qualquer coisa de comer!
Eu prometo devolver,
assim que seja verão.
Cada grão por cada grão.
E, palavra de animal,
com juros etc e tal."
-"E no tempo de calor?
O que fazia? me diga,"
perguntou-lhe a formiga,
sem pena da sua dor.
"Eu cantava, noite e dia.
Eu cantava toda hora."
-"Cantava, né? Já sabia!
Muito bem... Dance agora!"
(Tradução de Angela-Lago)
Na fábula A Formiga e o Escaravelho de Esopo, o Escaravelho caçoa da Formiga atarefada, enquanto todos se divertem no verão. O comportamento da formiga fica mais perdoável.
Já o nosso querido Braguinha não iria deixar uma colega cigarra nessa situação de penúria. Na sua versão, publicada pela Moderna, a história termina com a Formiga fazendo sua auto-crítica: Eu acho que tem razão,/ minha cigarra querida./ Vivo juntando mil coisas / e desperdiçando a vida.
La Fontaine (1621-1697) escreveu suas fábulas ad usum Delphini:: Atrevo-me, Meu Senhor, (...) Estais numa idade que se permitem aos príncipes diversões e jogos; mas ao mesmo tempo deveis dedicar-vos a reflexões sérias.
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