Angela-Lago, Belo Horizonte, agosto de 1989

UM LIVRO DE AREIA

 

Vou me permitir pensar a respeito da minha própria infância e me perguntar porque, para que, para quem desenho e conto histórias em livros de imagem. Sei que são perguntas sem respostas definitivas, como são em geral todas as perguntas que fazemos a nós mesmos. No entanto esta tentativa de me revelar, mesmo que de uma maneira provisória, é o que tenho, de mais pessoal, a oferecer.

Há uma imagem que avassala toda a minha vida, que me traz de volta as maiores angústias e a sensação de maior beleza, e, esta imagem eu a vi, pela primeira vez, por volta dos 4 ou 5 anos.

Acostumada a ir para cama, mal começava escurecer, numa casa de muitos filhos e mãe atarefada e enérgica, saí pela primeira vez à noite, quando fui a uma coroação, por volta desta idade.

Maio, lua nova talvez, céu límpido, olhei para cima e fiquei estatelada. Mil furinhos tilintando num céu imenso.

Na minha cabeça de menina, começei então a montar um quebra-cabeça interminável. A noite coroada, o manto da poderosa Nossa Senhora Natureza, a voz da minha mãe dizendo:

- A terra é também do tamanho da cabeça de um alfinete e nós somos pequenas pulgas pululando.

Desde então, escuto os gritos de Joãozinho e Maria, abandonados no fundo da floresta. E cada vez que olho as estrelas tenho a sensação de pulgas e alfinetes que me espetam e pinicam em cada poro.

Aos 6 anos, vi, pela primeira vez, o mar das minhas primas cariocas, com o despeito secular dos mineiros, mas com este trunfo, ao mesmo tempo belo e aterrador: eu já tinha minha experiência de infinidade, ou, se me permitem inventar palavras, minha experiência de infinitude, de infinidão.

Parece-me que tudo que escrever ou desenhar se remeterá sempre, de alguma maneira, a esta experiência: eu vi um céu cheio de estrelas.

Será sempre por desejo de escapar à minha pequenez ou de tentar tocar uma ponta deste deslumbramento que me isolarei na mesa de trabalho, que, por esta esperança, se transforma no meu lugar a salvo.

Parece-me assim que escrevo para a sombra desta criança que se maravilhou e se sentiu perdida e que me escapole do peito, na calada da noite, na hora da falta, nos rompantes da paixão ou do descomedimento.

Desenho para apaziguá-la, para a consolar do que não tem consolo, para brincar com ela.

Sinto hoje, também, que a esta minha criança se somam outras crianças. As que vi crescer e hoje são moços e moças, adultos, e as crianças do vizinho ou da amiga, e mesmo aquelas que pressinto nos disfarces dos crescidos. Somam-se crianças que vi ou ouvi, por acaso, na rua, no ônibus. E crianças imaginárias, personagens de livros e filmes.

Colcha de retalhos, feita de momentos de encontro, de alegria compartilhada, de enternecimento ou compaixão, esta minha criança interna não é mais só a minha, mas todas as crianças que de alguma forma me tocaram, me ensinaram suas próprias experiências, se acrescentaram a minha vida, como se fosse minha vida.

Por certo, é também para esta criança múltipla, sem idade certa, sem contorno definido, que desenho.

Escuto com frequência escritores, ilustradores e críticos de literatura infantil dizerem que não existe literatura infantil, mas literatura. É verdade que um bom livro para crianças acabará por tocar a sensibilidade mais profunda de uma emoção adulta, na medida que resgatar as mais antigas lembranças. Pergunto-me, no entanto, se na fala do escritor e ilustrador contemporâneo, que nega estar se diringindo à criança, embora publique em editora e coleções comercialmente dirigidas a ela, não existirá um preconceito contra a infância. Vivemos um final de século psicologizado, onde a infância é vista como uma etapa, a criança, um "vir a ser". Esquecemos que nós adultos também somos um "vir a ser", que continuamos nos transformando a cada momento e que esta é justamente a riqueza do momento. Esquecemos que talvez apenas as lembranças são permanentes, ou nem elas, já que a memória vive na casa da imaginação.

Gostaria de dizer que nos meus últimos livros procurei me dirigir às crianças, tratei de desenhar como se escrevesse uma amorosa carta.

Na verdade, sonho que uma criança encontre na minha leitura do mundo, a sua própria leitura. Que uma criança descubra os seus próprios caminhos nos meus descaminhos e reinvente meu conto, na medida das suas próprias fantasias. Acredito que se somos diferentes no que diz respeito a maturação cognitiva, não somos tão diferentes assim nas nossas necessidades, incluindo a necessidade de beleza e humor.

Não sei se esta criança, que me responderá no espaço mágico do livro, já sabe ler ou não. Por isto desenhei de maneira com que ela pudesse ler sozinha, mesmo que ainda não soubesse o alfabeto. Com esta intenção foram feitos os dois livros que destacaria entre meus trabalhos publicados até agora: Outra Vez e Chiquita Bacana e as outras Pequetitas . No livro Outra Vez narro com imagens, sem usar uma única palavra. Em Chiquita Bacana e as outras Pequetitas o texto acompanha a imagem como uma música de fundo, mas a história deve ser lida ou reinventada através das ilustrações. Seu texto foi construído para ser lido em voz alta: rimas, onomatopéias, fazem dele quase um trava-línguas. Pretendia despertar aquele prazer com a sonoridade da língua que compartilhamos com a criança, mais do que revelar a história ou dar sentido às imagens. É ele que ilustra, não os desenhos.

Estes dois trabalhos foram construidos lentamente e assim se somaram à narrativa principal pequenas histórias paralelas que me ocorreram enquanto desenhava e que deixei fluir. Há talvez uma profusão de detalhes, que à primeira vista pode confundir ou atordoar. Na verdade não me preocupo com que a criança entenda tudo, porque eu tampouco entendo tudo. Prefiro que ela se perca, a que encontre um trajeto sem novidade ou surpresa. Prefiro que ela me desdenhe pelas dificuldades que por ventura lhe imponha, do que perceba em facilitações, que por ventura me escapem, um desdém que não lhe tenho.

No entanto, o trabalho ao qual venho me dedicando nos últimos tres anos não se dirige propriamente à criança, mas pretende resgatar a passagem da minha infância para a vida adulta, quando veio a flor da pele a descoberta do anseio amoroso. Trata-se do projeto de um livro onde pretendo desenhar minha leitura do Cântico dos Cânticos. Ainda menina de uns quatorze anos, este poema sobre a paixão provocou-me pasmo, deslumbramento. Pretendo recuperar e rever, neste trabalho, o espaço mágico que esta leitura abriu no meu imaginário.

Na minha leitura, o Cântico dos Cânticos é um poema, ou uma série de poemas, onde dois enamorados se encontram e se perdem e novamente se buscam em aproximações e afastamentos que se sucedem. O ponto chave de concepção deste projeto, é, por isto, o de tentar criar um livro sem final, funcionando como a Banda de Moebius, numa construção ininterrupta. Um livro que possa ser lido em qualquer direção, de cabeça para baixo, de trás para frente.

Talvez, no fundo, sou como um personagem de Borges, sonhando "el libro de arena", "el jardin de senderos que se bifurcan" . Sonhando um livro circular, inesgotável, corpo de segredos a serem descobertos, objeto de paixão, que cada um reinventa à sua revelia.

Trata-se ainda de um sonho da menina canhestra, maravilhada e perdida diante de sua primeira experiência de infinidade.