Angela Lago / PUC- PREPES / Belo Horizonte, 16 de julho de 1992
O CÂNTICO DOS CÂNTICOS: uma leitura através de imagens


Não cabe aos autores explicarem as suas obras. Acredito que deveríamos imitar as árvores, que oferecem seus frutos sem prefácios ou qualquer conversa. No entanto, a oportunidade de participar desta aula e falar do meu CÂNTICO DOS CÂNTICOS me deixa muito feliz. Venho me sentindo impelida a reconstruir um pouco da história deste livro, neste momento que, em meio a inquietações, estou prestes a entregá-lo ao leitor.
Na verdade, imagino que também o leitor poderá se inquietar diante desse objeto literalmente sem pé nem cabeça e que, podendo ser lido a partir de qualquer uma das capas, não tem príncipio nem fim. Espero que, contando a vocês as minhas próprias inquietações, além de me desafogar, encontre alguma simpatia para esta proposta de leitura que não é a usual.
Publiquei, faz tempo, um livro de imagem sem texto, OUTRA VEZ, que talvez vocês conheçam. Quero me referir a ele, para explicar por que considero pouco usual a leitura que agora proponho. No OUTRA VEZ, as imagens narram uma ou diversas pequenas histórias a serem descobertas e construídas pelo leitor. As imagens fazem ficção, fazem uma prosa, mesmo que poética. Este novo livro pretende ser a leitura de um poema, quer ser poema. A ênfase das imagens não está portanto na sua capacidade de narrar, mas na capacidade de evocar. Ao contrário da prosa, " discurso que vai em linha reta até o fim", o verso é o que volta quando ele está completo. Falaremos mais sobre isto adiante.
Um outro paralelo entre os dois livros é o do leitor virtual ou potencial. Sempre acreditei ser possível escrever e desenhar para crianças, embora não queira excluir do meu trabalho o adulto e sua leitura. Acredito que isto esteja claro nos livros que publiquei. Os referenciais que venho usando, a linguagem, o vocabulário, sejam eles visuais ou literários, são referenciais da infãncia, ou de minha infãncia. Com eles tento me comunicar sobretudo com a criança, mesmo que esta criança ainda seja um pedaço de mim, neste espelho narcísico dos autores. Assim a ausência do texto é facilmente compreensível em OUTRA VEZ, cujo leitor ainda não é necessariamente letrado. Mas este não é o caso do CÂNTICO DOS CÂNTICOS, onde esta ausência tem motivações bem menos claras. Tenho que confessar ainda que, neste trabalho, embora a príncipio acreditasse estar me dirigindo a jovens e adolescentes, pouco a pouco a imagem do meu leitor se diluiu e hoje já não sei mais qual sua face ou idade.
Um terceiro e último paralelo: a questão do término da leitura. Mesmo que o final de OUTRA VEZ nos remeta ao início, ele é conclusivo: termina, alivia. O CÂNTICO DOS CÂNTICOS, por sua vez, nos desconforta, nos deixando desamparados na sua circularidade inconclusa.
Pretendo falar, no meu CÂNTICO DOS CÂNTICOS (1), do infinito: "o Amor é forte como a Morte", diz o texto bíblico. E se este verso é o verso da esperança, ele também nos remete às perguntas da angústia, ou pelo menos, à desmesura da paixão.
Na realidade, este livro é uma história de amor apaixonado, de uma leitora por um livro. Ainda menina de uns quatorze anos li, por acaso, na Bíblia, O CÂNTICO DOS CÂNTICOS. Quase trinta anos depois, pensei que seria capaz de recuperar esta primeira leitura juvenil. Não me lembro mais em que momento, acreditei que seria necessário mais: além de recuperá-la, revê-la, a partir do meu olhar de mulher de meia idade. Durante muito tempo acreditei estar trabalhando nesta direção. Agora vejo que meu coração continua adolescendo vida a fora, que meu fascínio diante deste poema persiste, e o arrebatamento de hoje talvez em quase nada se difira do arrebatamento da menina que fui.
É preciso portanto ver este livro, construido sob o signo da paixão(2), sob este signo - um signo que não se ordena e está aquém ou além de qualquer lógica. É preciso considerar a possibilidade da nossa maturidade cronológica não nos liberar da perplexidade e a de continuarmos falando da ilusão na ilusão.
Durante longos seis anos, me ocupei, de alguma forma, com este projeto. No entanto vou entregar ao leitor umas poucas páginas: alguns desenhos. Não há sequer uma história, já que, como lhes disse, a intenção era fazer um poema. Dois jovens se buscam e se perdem: é tudo. Se o leitor for bastante condescendente, para ver mais uma vez o livro, a partir da outra capa, de novo, estes vagos personagens se aproximarão e se afastarão. Todo livro terminou por se resumir, quem sabe, em um único verso. Uma curta oração, feita em um quarto escuro, com a matéria de um sonho. E talvez por isto, eu tenha que pedir ao leitor até mais do que duas leituras: uma contemplação. Tenho que lhe pedir, não mais que ele reivente ou construa histórias, mas que se permita o devaneio poético.
Usei, como referencial de linguagem nestes desenhos, as iluminuras, as miniaturas medievais e islâmicas e inclusive citei o que delas foi retomado, no final do século passado, por William Morris. Há ainda algum barroquismo ou maneirismo, na medida que tento descentrar o olhar com inúmeras espirais, e provocar algo parecido com meu sentimento de deslumbramento.
E uma clara evocação a Escher, o artista gráfico que explorou o infinito, e cujas fascinantes gravuras conheci ainda adolescente também. A partir do estudo da obra deste artista, inventei outras e novas perspectivas que ignoram suas leis e desenham escadas impossíveis, colunas que sugerem dois planos em apenas um, ou que são mais numerosas no topo que na base. São construções que só são cabíveis na irrealidade das duas dimensões que a folha de papel oferece e não na realidade tridimensional.
Talvez estes detalhes, que explorei na tentativa de criar uma atmosfera de sonho, passem despercebidos e o leitor veja mais além. Talvez seja este o meu desejo: que a leitura se construa fora de qualquer domínio.
Por algum motivo este livro se quis silencioso. Durante muito tempo acreditei que não poderia prescindir de um texto. Procurei usar fragmentos de diferentes versões dos CÂNTICOS, integrando estes fragmentos aos layouts, de forma a parecer que o texto estava sendo descoberto, desvelado, como se a ilustração estivesse superposta ao texto e, ao descolar uma ponta, voltássemos a vislumbrá-lo. Para isto simulei na ilustração uma dobra num ângulo da página, de maneira que duas falas se apresentassem em páginas opostas.
Foram muitas tentativas, algumas tresloucadas. Mas minha impressão sempre era de que, com texto, as imagens se legendavam e perdiam amplitude. Ao mesmo tempo temia desviar o leitor da busca de uma versão completa do CÂNTICO DOS CÂNTICOS, o texto do meu encantamento, ao qual eu gostaria de o remeter.
Só consegui terminar o livro, quando decidi deixá-lo sem palavras. Velei o texto. Cobri o espaço a ele reservado nos desenhos, com ornamentos e flores. Páginas se dobram sobre si, querendo talvez O CÂNTICO DOS CÂNTICOS intocado, num lugar sagrado, pleno de seus segredos.
Assim seja. Que o leitor perplexo seja impulsionado a ler, ou reler, O CÂNTICO DOS CÂNTICOS de Salomão, que por paixão, ou zelo, ou pudor, achei por bem esconder atrás destes desenhos.
(1) O texto do Antigo Testamento, atribuído a Salomão, merece, por sua beleza, o nome de CÂNTICO DOS CÂNTICOS. A repetição da palavra Cântico, diz Hendrik van Loon, em sua História da Bíblia, " faz- se para dar entender um superlativo de perfeição literária, querendo dizer que essa é a mais bela de todas as canções." No meu trabalho, o nome CÂNTICO DOS CÂNTICOS ganha um outro sentido: o de ser um cântico feito de cânticos. Um cantar feito de dois cantares. O recomeço da leitura pela outra capa, acentua uma sequência que pode nos remeter aos mitos de renovação.
2) O texto do CÂNTICO DOS CÂNTICOS de Salomão é também um texto construído sob este signo e "seu entendimento é obscurecido pelas dificuldades que se hão de ver em todos os escritos nos quais se traduzem as grandes paixões ou afetos" diz Frei Luis de León, em sua Vérsion y Exposición de EL Cantar de los Cantares.
Escrito originalmente em hebraico, idioma de poucas palavras, sempre com múltiplos sentidos, é um texto de difícil tradução. As versões que encontramos deste poema são bastante diferentes entre si. Seus comentaristas nos oferecem distintas interpretações: por exemplo, a de que se trata de epitalâmios, cantos nupciais, celebrando a união de Salomão com a filha do rei do Egito, ou de éclogas, que cantam os amores entre um pastor e uma pastora. Temos ainda interpretações que sugerem que O CÂNTICO DOS CÂNTICOS era originalmente um poema único com estrutura dramática. O texto narraria então a história da esposa camponesa que, saudosa de casa, convence Salomão a abandonar o palácio e voltar com ela ao campo. Em outra interpretação, a esposa camponesa escapa de Salomão, em busca do namorado pastor.
Na minha leitura, O CÂNTICO DOS CÂNTICOS é um poema, ou uma série de poemas, onde dois enamorados se encontram e se perdem e novamente se buscam, em aproximações e afastamentos que se sucedem. O ponto chave deste projeto foi, por isto, o de tentar um livro sem final, funcionando como a Banda de Moebius, numa construção ininterrupta.