Angela Lago / BH, Junho/97

O COMPUTADOR E O LIVRO

O computador tem sido um bom companheiro para minhas experimentações com o livro, e eu deveria falar aqui sobre ele. Pelo menos foi essa a encomenda: que eu falasse sobre o micro e a programação visual do livro. Tarefa difícil. Porque a minha sensação é, cada vez mais, de que o computador é o instrumento das novas mídias. Não do livro.

A informática certamente favorece algumas experimentações na área do projeto visual, e facilita barbaramente todo o trabalho. Mas, para o livro, talvez seja só mais um instrumento: não revoluciona a linguagem. A revolução do computador está acontecendo (ou deve acontecer, ou será que já aconteceu?) no próprio computador. Mais especificamente, na Internet. E talvez o seu reflexo no livro seja, comparativamente, muito tênue.

É que o livro nasceu pronto. Na metade do milênio, logo após a invenção da impressão, já temos trabalhos, diagramados tipograficamente, cuja complexidade e qualidade gráfica ainda deixa boquiaberto o mais criativo e equipado diagramador contemporâneo. Difícil reinventar o livro. Na verdade, quem trabalha com sua programação visual não cessa é de admirar essa invenção. E as novas mídias só vêm acentuando suas possibilidades e permanência.

Por certo, o que há de melhor na Internet é que ela se tornou uma grande livraria. Segundo alguns, a Livraria com maiúsculas, onde se encontra qualquer coisa que se procure. Exagero? Pode ser. O fato é que venho encontrando catálogos e mais catálogos de livros. O Cyber-monstro é enorme e com muitas cabeças. Num conto, seria o terror absoluto: não conseguimos enxergar onde começa ou termina.

Minha impressão é que a gente se relaciona com a Internet como os cegos da parábola oriental. Apreciamos o elefante e o descrevemos como sendo o pedaço que nossa mão toca. Eu apalpo a terceira unha da pata esquerda de trás e algumas vezes fico irritada: parece pesada. Navegar soa leveza, rapidez, exatidão, visibilidade, multiplicidade (as propostas de Calvino para o novo milênio). E por enquanto, na maioria das vezes, os sites da Internet estão muito longe disso.

Vou percebendo como, em relação ao livro, o computador já não me interessa tanto. Antes não era assim. No final dos anos 80 tentei, de maneira tímida e canhestra, recusar a divisão entre texto e imagem. Considerar a possibilidade de desenhar com a tipologia e escrever com a ilustração. Tentei ainda usá-lo para fazer parcerias tresloucadas nos desenhos, colocando no scaner artistas da minha admiração, como Dürer. Aproveitei que os mortos não voltam para cometer pequenas atrocidades. Nessa época, o computador era para mim uma ferramenta fundamental.

Ainda é, quando minha preocupação é a conjugação do texto e imagem. Ainda é, também, quando a intenção é baratear custos ou ter um domínio maior sobre a produção dos filmes. Continua sendo, a maior parte do tempo, minha prancheta de trabalho e às vezes um pincel inusitado. Mas, ultimamente, cada nova pergunta que me coloco em relação ao livro para crianças me faz voltar aos antigos pincéis ou lápis.

Essas novas perguntas se referem muitas vezes a pequenos detalhes do objeto livro. Por exemplo, o aproveitamento da dobra da folha. Essa foi minha pesquisa por algum tempo: aproveitar a dobra no meio da folha, acentuando a emoção e a plasticidade do desenho no livro, no momento em que a página é passada pelo leitor. Colocar, por exemplo, nessa dobra a quina mais profunda, para acentuar uma perspectiva, ou o joelho de um personagem, para acentuar o seu movimento. E essa pesquisa foi feita basicamente no papel, trabalhando o boneco (a maquete) do livro com as páginas já dobradas.

É também no papel que venho me colocando perguntas mais abrangentes sobre a ilustração. Acredito que em geral o ilustrador se propõe a ser um leitor e, portanto, co-autor. Mesmo que faça isso das mais diferentes maneiras. Tentando ilustrar o não dito do texto. Tentando ser o terceiro do triângulo amoroso - o que seduz o leitor para o livro. Tentando acentuar um ou outro momento da história e criar um ritmo visual para a narrativa.

No meu último livro publicado - PEDACINHO DE PESSOA, Editora RHJ- procurei um caminho que, pelo menos para mim, era completamente novo. O de tentar traduzir uma linguagem em outra linguagem. É, sem dúvida, o mais pretensioso dos meus trabalhos. E de princípio um trabalho que se frustra pela própria intenção: a de buscar uma impossibilidade. Talvez por isso só assino os desenhos na contracapa. E a capa já é bem tímida.

O livro reúne uns poucos versos do mestre Alberto Caeiro. Versos que falam do contentamento de viver com a alma das sensações. Para tentar sentir igual, me colei em cada palavra. Reduzi a minha linguagem ao mínimo. A palheta é mínima - basicamente duas cores - e quase não há desenho. Busquei feito uma louca a espontaneidade da fala de Caeiro, cujo verso parece, às vezes, conversa que a gente escuta pela rua: "Sei lá o que penso do mundo!"

Sei lá o que penso do mundo. Mas uma coisa sei: a linguagem verbal não é traduzível para a visual. São duas formas de pensar diferentes. Não sei se valeu a pena para o leitor, essa minha tentativa absurda. Espero que sim, e que de alguma forma o livro sirva para aproximar a criança de um dos maiores poetas da língua portuguesa. Para mim, valeu a pena. Foi um brinquedo a sério.

Agora, para variar, vou voltar a desenhar no computador e contar uma história bem simples, dessas que tia conta para sobrinho-neto. Afinal, o computador tem sido um bom companheiro. E é sempre mais leve e descompromissado trabalhar com ele. Desenhar e diagramar no computador é mais ou menos como usar um processador de texto. A possibilidade do cut and paste nos deixa sempre menos ansiosos e mais dispostos a ir levando o nosso pensamento ao deus-dará . Como, aliás, acabou saindo esse artigo - pensamentos ao léu. Que o leitor me perdoe.